Despretensiosamente fui assistir ao filme Espelho, Espelho Meu, com Julia Roberts e uma estreante chamada Lily Collins, a cara da Audrey Hepburn. E sim, estava um pouco de má vontade, em ver uma mulher da minha gerada no papel de bruxa, e uma princesinha de 18 anos no papel de mocinha...
Cai do cavalo. Nesses tempos em que ando prestando atenção a todos os meus sonhos numa tentativa de auto-análise, o filme traz muitos símbolos e uma história contada de maneira um pouco diferente, sem pesar tanto a mão na receita boa mocinha/má vilã. Tem vários lados, os personagens, incluindo o príncipe, que é galã e se acha, mas cheio de defeitosinhos - inclusive o de se achar o máximo, ser bastante desajeitado, preconceituoso - chama os sete anões de nanicos pra baixo - e confessar que se decepcionou com a princesinha.
A bruxa rende os momentos mais interessantes da história. Quando conversa com o espelho, literalmente mergulha nele e segue em direção a uma casinha onde está... ela mesma! Seu alter-ego, com os dois lados da consciência conversando entre si, o lado negro que faz as maldades, sempre lembrando das consequências como quem diz: "pode fazer o que está pensando, porém..."
Já Branca de Neve trouxe uma metáfora tão forte quanto a do espelho. A menina vive 18 anos trancafiada em um castelo, sendo bastante maltratada pela Rainha, que o tempo todo diz o quanto ela é bobinha, indefesa, fraca. A menina acredita. Uma hora ela sai do castelo e vê as barbaridades que a bruxa cometeu, e se rebela. A rainha manda um lacaio matar a mocinha, esta foge para a noite escura, e encontra os setes anões e...
Aí o filme esquenta. Os sete anões são ladrões. Começa a se tocar que não adianta ficar só de mocinha, e precisa trabalhar sua esperteza, sua malemolência. Interessante a metáfora da esperteza, do equilíbrio entre a docilidade (natural dela) com essa esperteza, pra conquistar os anões. Não conquista com força, mas pela força feminna...
Ela entra pro bando dos anões, numa ética digamos, maleável, pra aprontar contra a própria rainha. Chega a lutar com o príncipe, de igual pra igual, embora já a fim do cara... sequestra o mocinho que quase casou com a Rainha - detalhe, este príncipe bebeu uma poção de amor "cachorrinho" e fica um porre grudento e choramingão, apaixonado pela rainha. A mocinha não fica na dela. Toma a iniciativa e beija o príncipe-cão-capacho e quem acorda, do feitiço, é ele!
Pra terminar a saga da menina que se assumiu mulher, ela ainda quebra um feitiço da rainha contra seu pai, o rei, que virou uma fera da floresta. Depois de anos, seu pai volta a forma humana e fica abismado com a mudança física da menina, que ele não via desde que ela era criança. Ops, aí vai mais uma: quantos pais (inclusive o meu), adormecem num dia a dia embotado pelas obrigações e pelo piloto automático, quando de repente vê sua filha e não acredita o quanto ela cresceu, e o que ela se tornou...
E a maçã nessa história, onde fica? Vou resistir e não contarei o final do filme. Só lhe digo: a Branca de Neve já não é mais a mesma, não sai aceitando qualquer coisa de qualquer um (ou uma) que se diz bonzinho, ou vítima.
E você? Tá na sua fase de Branca de Neve, de bruxa? Um pouco de cada? Eu estou e sou assim, me descobrindo princesa às vezes, precisando polir também minha esperteza pra me ajustar a sabedoria de Rainha. Ou imperatriz, como aparece no tarot. Quanto ao príncipe, esse deve estar circulando por aí, tal qual o do filme, decepcionado com os defeitos femininos ou se fazendo de cachorrinho para bruxas vingativas e que só pensam na aparência.
A hora que ele acordar e ver que de mocinha e de bruxa todas as mulheres devem ter um pouco, ele vai se encontrar com ela. Ou comigo, quem sabe!
12/04/2012
09/04/2012
Avançar ou recuar, razão ou emoção
Um mês sem escrever mas elocubrando sobre a forma como nos expressamos e achamos que o outro está sentindo...
Está acontecendo um fato interessante com uma querida amiga minha que tem me feito pensar bastante e chegar a conclusão nenhuma (o que me leva a pensar se chegar a conclusões é realmente necessário, rs). Ela está paquerando (ou acha que está) um figura que conheceu e o qual imediatamente sentiu grande afinidade de idéias e pensamentos, sem pensar inicialmente naquilo que a maioria pensa de cara - se rolou ou não uma "pegada". Aquela química, que te dá vontade de imediatamente pular no pescoço do individuo e abrir as pernas sem piscar.
Pois bem. Depois de alguns papos a moça em questão começou a olhar o moço com outros olhos, sempre pensando "será?". A curiosidade é uma marca feminina e a distração também... enfim, os dois têm saído, papeado, adoram a presença um do outro e parecem muito felizes em trocar uma idéia e... e só!
Está mais ou menos grilada, minha amiga. Quer entender qual é. Rola? Não rola? Tomaria ela a iniciativa de partir pro ataque? O cara é tranquilo, amigo de todos (e todas), trata com carinho mas não abre brecha... ou ela não percebe. Nesse faz-não-faz, algumas amigas também elocubram. "É gay", diz uma. "Ela tá muito devagar", diz outra". "Xi, vão acabar perdendo o timing, o foco".
Será?
Que horas/que ponto uma amizade masculina precisa ter intenção de prosseguir e virar uma pegada/relação/amizade colorida?
Qual é o limiar das relações? Como é que se percebe o outro, suas intenções e vontade, respeitando-as para avançar ou recuar?
São questões que fazem parte de qualquer DR (leia-se: discutir as relações). Porém... cada caso é um caso, não dá pra julgar, não dá pra saber sem esperar pra ver o que rola, ou não. Precisa rolar, sempre? Precisa de um empurrãozinho, um jogo de sedução? Ou precisa de tranquilidade?
Minha amiga não sabe. Mas ela e todas nós sabemos que excesso de regras e pré-conceitos sempre dão e deram merda. Esperar pra ver... parece a única solução até o momento. No tarot a carta dos Enamorados alerta: é preciso equilibrar o racional e o emocional pra não misturar desejo, necessidade e vontade. E descobrir se os três andam juntos numa relação que está começando e ainda não se sabe qual é, depende um pouco do racional.
Se não andam juntos, ao menos se mantém uma amizade... avançar ou recuar depende desse equilíbrio!
Está acontecendo um fato interessante com uma querida amiga minha que tem me feito pensar bastante e chegar a conclusão nenhuma (o que me leva a pensar se chegar a conclusões é realmente necessário, rs). Ela está paquerando (ou acha que está) um figura que conheceu e o qual imediatamente sentiu grande afinidade de idéias e pensamentos, sem pensar inicialmente naquilo que a maioria pensa de cara - se rolou ou não uma "pegada". Aquela química, que te dá vontade de imediatamente pular no pescoço do individuo e abrir as pernas sem piscar.
Pois bem. Depois de alguns papos a moça em questão começou a olhar o moço com outros olhos, sempre pensando "será?". A curiosidade é uma marca feminina e a distração também... enfim, os dois têm saído, papeado, adoram a presença um do outro e parecem muito felizes em trocar uma idéia e... e só!
Está mais ou menos grilada, minha amiga. Quer entender qual é. Rola? Não rola? Tomaria ela a iniciativa de partir pro ataque? O cara é tranquilo, amigo de todos (e todas), trata com carinho mas não abre brecha... ou ela não percebe. Nesse faz-não-faz, algumas amigas também elocubram. "É gay", diz uma. "Ela tá muito devagar", diz outra". "Xi, vão acabar perdendo o timing, o foco".
Será?
Que horas/que ponto uma amizade masculina precisa ter intenção de prosseguir e virar uma pegada/relação/amizade colorida?
Qual é o limiar das relações? Como é que se percebe o outro, suas intenções e vontade, respeitando-as para avançar ou recuar?
São questões que fazem parte de qualquer DR (leia-se: discutir as relações). Porém... cada caso é um caso, não dá pra julgar, não dá pra saber sem esperar pra ver o que rola, ou não. Precisa rolar, sempre? Precisa de um empurrãozinho, um jogo de sedução? Ou precisa de tranquilidade?
Minha amiga não sabe. Mas ela e todas nós sabemos que excesso de regras e pré-conceitos sempre dão e deram merda. Esperar pra ver... parece a única solução até o momento. No tarot a carta dos Enamorados alerta: é preciso equilibrar o racional e o emocional pra não misturar desejo, necessidade e vontade. E descobrir se os três andam juntos numa relação que está começando e ainda não se sabe qual é, depende um pouco do racional.
Se não andam juntos, ao menos se mantém uma amizade... avançar ou recuar depende desse equilíbrio!
08/03/2012
Dieta mental: pra pendurar na geladeira
Ainda vou comentar aqui o achado lindo de minha querida Flávia Rossi, o blog Quero Correr com Os Lobos, realmente um achado entre as mulheres que escrevem (tenho visto muita porcaria de literatura de mulherzinha nas livrarias, verdadeiros lixos que só servem pra gastar papel). Por enquanto posto um trecho de um post que achei o máximo e vou pendurar na minha geladeira:
O que é proibido na Dieta Mental:
- consumir qualquer tipo de pensamento negativo
- qualquer tentativa de construir um auto-boicote mental
- remoer qualquer remorso ou rancor do passado
- focar nos problemas
- acordar pensando que a última coisa que eu quero fazer é levantar da cama
- fofocar sobre a vida alheia
- desejar mal para alguém (qualquer pessoa, por mais fdp que ela seja)
- pensar que não serei capaz de qualquer coisa
O que é obrigatório na Dieta Mental:
- consumir pensamentos agradáveis
- construir imagens mentais que tragam esperança
- projetar meus amores e carinhos para as pessoas ao meu redor
- focar nas soluções
- acordar de manhã esperando por um dia bacana
- escutar mais do que falar
- ajudar alguém que precise de ajuda
- pensar em novas possibilidades e caminhos
07/02/2012
Da velhice e do corpo
Minha mãe passa férias em casa. Ultimamente só tenho a visto uma vez por ano (no Natal), e a passagem do tempo não me permite enxergar algumas coisas com clareza. Como acontece com um bebê que acaba de nascer e você o vê somente daqui sete, oito meses e se pergunta: será a mesma criança? Ou a trocaram na última visita ao pediatra?
Ela ainda não tem 70 anos. Mas tem a saúde um pouco frágil, e a memória, idem. Sofre de dor nas costas. Demora a percorrer o caminho do apartamento até a praia, e cansa na volta. E a memória...
Ele esquece coisas pela casa. Não lembra onde guardou as pilhas recarregáveis antes de dormir. A panela em cima do fogão. A máquina fotográfica em um canto da prateleira. Eu, que moro sozinha, fico brava achando que ela mexe em tudo de propósito. Ela se magoa, e mistura sua mágoa com seu próprio espanto. Sabe que está esquecida, por causa de remédios e nem só pela idade, mas se assusta.
Eu me assusto também. Que a ficha cai de uma vez no orelhão (quem é do tempo do orelhão sabe do que estou falando), faz um grande barulho e de repente, já caiu e você consegue completar a ligação. É assim com o que se chama de velhice? Não se percebe direito e, quando se vê, num estalo ela caiu, ou você caiu nela?
Minha mãe lembra de um apresentador de televisão que mostrou uma velhinha abordada por um assaltante. A velhinha... tinha 62 anos. Minha mãe, 61. Você não é velha, digo a ela, velha é minha vó, que passou dos 80 e tantos. Passou do prazo de validade ou esqueceu, já está no bônus, é algo assim que minha mãe diz, com ironia. A mágoa se esconde um pouco no sarcasmo, mas pelo menos podemos rir um pouco após o susto.
Quem disse que envelhecer é maravilhoso? Envelhecer é FODA. É assustador. É lembrar que não somos imortais, apesar de vivermos muitas vezes no piloto automático. A qualquer momento a ficha pode cair no orelhão da vida, direto pra surpresa dos que ficam a olhar o seu caixão no velório. Ui... exagerei? Mas é isso mesmo. Por mais que tenhamos religião e acreditamos no pós vida, na reencarnação e no paraíso, a verdade é que quando alguém morre é como a tal da ficha, abrupta, estalando dentro do aparelho de telefonia. E encarar essa verdade nos assombra.
Pelo menos, que se envelheça com dignidade e respeito. Horrível, chamar as velhas de velhas. Não continuamos mulheres? Tive vontade de subir no pescoço do tal apresentador, que também deve ter passado da casa dos 50, e "está se achando"... esqueço que é só ver alguém com cabelos brancos e encurvada e penso a mesma coisa. Velhinhas...
Eu vou tentar. Ter mais paciência, andar mais devagar, não me importar com as coisas que desparecem no apartamento porque minha mãe deixou em algum lugar. Tentar ajudá-la, pensar na saúde, exercícios pra memória e pra ajudar o corpo a se adaptar a essa fase. É só um corpo, melhor se acompanhar a mente.
Agora é ela. Um dia serei eu, você, todos nós.
Ela ainda não tem 70 anos. Mas tem a saúde um pouco frágil, e a memória, idem. Sofre de dor nas costas. Demora a percorrer o caminho do apartamento até a praia, e cansa na volta. E a memória...
Ele esquece coisas pela casa. Não lembra onde guardou as pilhas recarregáveis antes de dormir. A panela em cima do fogão. A máquina fotográfica em um canto da prateleira. Eu, que moro sozinha, fico brava achando que ela mexe em tudo de propósito. Ela se magoa, e mistura sua mágoa com seu próprio espanto. Sabe que está esquecida, por causa de remédios e nem só pela idade, mas se assusta.
Eu me assusto também. Que a ficha cai de uma vez no orelhão (quem é do tempo do orelhão sabe do que estou falando), faz um grande barulho e de repente, já caiu e você consegue completar a ligação. É assim com o que se chama de velhice? Não se percebe direito e, quando se vê, num estalo ela caiu, ou você caiu nela?
Minha mãe lembra de um apresentador de televisão que mostrou uma velhinha abordada por um assaltante. A velhinha... tinha 62 anos. Minha mãe, 61. Você não é velha, digo a ela, velha é minha vó, que passou dos 80 e tantos. Passou do prazo de validade ou esqueceu, já está no bônus, é algo assim que minha mãe diz, com ironia. A mágoa se esconde um pouco no sarcasmo, mas pelo menos podemos rir um pouco após o susto.
Quem disse que envelhecer é maravilhoso? Envelhecer é FODA. É assustador. É lembrar que não somos imortais, apesar de vivermos muitas vezes no piloto automático. A qualquer momento a ficha pode cair no orelhão da vida, direto pra surpresa dos que ficam a olhar o seu caixão no velório. Ui... exagerei? Mas é isso mesmo. Por mais que tenhamos religião e acreditamos no pós vida, na reencarnação e no paraíso, a verdade é que quando alguém morre é como a tal da ficha, abrupta, estalando dentro do aparelho de telefonia. E encarar essa verdade nos assombra.
Pelo menos, que se envelheça com dignidade e respeito. Horrível, chamar as velhas de velhas. Não continuamos mulheres? Tive vontade de subir no pescoço do tal apresentador, que também deve ter passado da casa dos 50, e "está se achando"... esqueço que é só ver alguém com cabelos brancos e encurvada e penso a mesma coisa. Velhinhas...
Eu vou tentar. Ter mais paciência, andar mais devagar, não me importar com as coisas que desparecem no apartamento porque minha mãe deixou em algum lugar. Tentar ajudá-la, pensar na saúde, exercícios pra memória e pra ajudar o corpo a se adaptar a essa fase. É só um corpo, melhor se acompanhar a mente.
Agora é ela. Um dia serei eu, você, todos nós.
17/01/2012
Uma carta que não vai chegar
A lua no tarot me aponta "uma tendência de encantamento para coisas irreais". Tendência, carma ou destino, foi assim que você apareceu no meu caminho. Como tantos outros encontros e desencontros.
No tarot a lua, o lúdico. Na vida real, o sol, a praia, e também o lúdico, a diversão, o prazer associado a uma cidade que tem tudo isso, mais a malandragem. Já te vi em fotos com um chapéu branco de malandro. Mas antes dessa foto, era assim que eu lhe enxergava, quando você descia a rua da minha casa todo dia de manhã, de carro.
Na malandragem foi me ganhando. Eu lhe achava 171 (artigo sobre estelionato no código civil, não é isso), tirador de onda, mas tinha seu charme. Acabei cedendo, do tipo "porque não". E na brincadeira o tempo foi passando e eu me apegando, quando eu descobri o lado escuro da lua, sem querer parodiar o original (Pink Floyd).
O meu lado negro. Não do apego ou do ciúmes, mas do que eu era capaz de fazer por uma história sem futuro, que eu já sabia o final. Queria viver o enredo dramático de um novela que eu entrei no 30o capítulo, sendo que meu nome nem aparecia como atriz convidada.
Me estrepei. Não me confundi, que sentimento mútuo tinha, mas ficar cara a cara com meus limites e seus excessos ou falta de, me baqueou. Não pensava a frase típica "como é que eu fui tão burra", matutava, "não consegui". Conseguir o que? Absolutamente nada a ver. Foi só uma participação especial na história de outra pessoa.
Especial sim... eu sei que foi. Pra mim, pra você, mundos completamente diferentes com vontade de conhecer outros planetas. Mas essa viagem foi curta. Seu destino, outro.
Hoje eu confirmei o que a intuição que me avisou. Você foi sim, para outro mundo, um universo paralelo, deixando a todos os que te conhecem atônitos. Estou triste, uma tristeza esquisita, que me deixa ainda mais sem vontade e sem paciência com a bobajada do cotidiano.
Me vi de novo frente a frente com a lua do tarot. Encarando o fato de que me sinto, além de triste, aliviada por não ser eu a mulher que estava do seu lado quando deve ter havido uma lenta e dolorosa despedida, meses depois que, soube, adoeceu. Senti, e vi tudo a distância. Como se, fora do enredo, acompanhasse a sua novela na televisão. Se fosse eu, não estaria consumida pelo irreal?
Ao final, só quero completar o que comecei na carta que lhe deixei há algum tempo, e que tenho certeza, você deve ter guardado bem escondido em algum lugar.
Irreal diz o tarot, e a mente, o racional.
Real foi meu sentimento, de que em algum momento dessa relação que nem sei se realmente começou, houve um encontro. Houve amor, um tipo de amor que pode não ser aquele que vai me acompanhar pra vida inteira, mas um amor pra me chacoalhar, perceber meus limites, expandir meus horizontes e me ajudar a conhecer um outro lado de mim.
Novamente, eu te digo. Obrigada, Alexandre, pelo que me ensinou.
Obrigada por me mostrar que eu sou ego, sou sangue, sou fachada, sou suor e sensações.
Obrigada por abrir meu coração pra Bahia, esse lugar me mexe tanto comigo.
Obrigada pelo encontro, mínimo, breve e torto.
Não vou mais me julgar.
Não vou me esquecer de você.
E nem da lua, e nem do sol, ambos no meu destino.
No tarot a lua, o lúdico. Na vida real, o sol, a praia, e também o lúdico, a diversão, o prazer associado a uma cidade que tem tudo isso, mais a malandragem. Já te vi em fotos com um chapéu branco de malandro. Mas antes dessa foto, era assim que eu lhe enxergava, quando você descia a rua da minha casa todo dia de manhã, de carro.
Na malandragem foi me ganhando. Eu lhe achava 171 (artigo sobre estelionato no código civil, não é isso), tirador de onda, mas tinha seu charme. Acabei cedendo, do tipo "porque não". E na brincadeira o tempo foi passando e eu me apegando, quando eu descobri o lado escuro da lua, sem querer parodiar o original (Pink Floyd).
O meu lado negro. Não do apego ou do ciúmes, mas do que eu era capaz de fazer por uma história sem futuro, que eu já sabia o final. Queria viver o enredo dramático de um novela que eu entrei no 30o capítulo, sendo que meu nome nem aparecia como atriz convidada.
Me estrepei. Não me confundi, que sentimento mútuo tinha, mas ficar cara a cara com meus limites e seus excessos ou falta de, me baqueou. Não pensava a frase típica "como é que eu fui tão burra", matutava, "não consegui". Conseguir o que? Absolutamente nada a ver. Foi só uma participação especial na história de outra pessoa.
Especial sim... eu sei que foi. Pra mim, pra você, mundos completamente diferentes com vontade de conhecer outros planetas. Mas essa viagem foi curta. Seu destino, outro.
Hoje eu confirmei o que a intuição que me avisou. Você foi sim, para outro mundo, um universo paralelo, deixando a todos os que te conhecem atônitos. Estou triste, uma tristeza esquisita, que me deixa ainda mais sem vontade e sem paciência com a bobajada do cotidiano.
Me vi de novo frente a frente com a lua do tarot. Encarando o fato de que me sinto, além de triste, aliviada por não ser eu a mulher que estava do seu lado quando deve ter havido uma lenta e dolorosa despedida, meses depois que, soube, adoeceu. Senti, e vi tudo a distância. Como se, fora do enredo, acompanhasse a sua novela na televisão. Se fosse eu, não estaria consumida pelo irreal?
Ao final, só quero completar o que comecei na carta que lhe deixei há algum tempo, e que tenho certeza, você deve ter guardado bem escondido em algum lugar.
Irreal diz o tarot, e a mente, o racional.
Real foi meu sentimento, de que em algum momento dessa relação que nem sei se realmente começou, houve um encontro. Houve amor, um tipo de amor que pode não ser aquele que vai me acompanhar pra vida inteira, mas um amor pra me chacoalhar, perceber meus limites, expandir meus horizontes e me ajudar a conhecer um outro lado de mim.
Novamente, eu te digo. Obrigada, Alexandre, pelo que me ensinou.
Obrigada por me mostrar que eu sou ego, sou sangue, sou fachada, sou suor e sensações.
Obrigada por abrir meu coração pra Bahia, esse lugar me mexe tanto comigo.
Obrigada pelo encontro, mínimo, breve e torto.
Não vou mais me julgar.
Não vou me esquecer de você.
E nem da lua, e nem do sol, ambos no meu destino.
24/12/2011
Rostos de ontem e de hoje
Há anos não via a minha avó, mãe de meu pai. Anos que se passaram pela janela do carro, na estrada que liga os interiores paulistas. Moro também há alguns anos no Nordeste, outra paisagem, e um estranhamento me comove. Não passou tanto tempo assim e, ao mesmo tempo, é como se eu tivesse saído daqui ha séculos. Ou nunca saí...
Minha vó é uma senhora quieta de 84 anos. Seus cabelos são lisos e brancos, cabelo de japonês, de índio. Estar com ela, minha tia, meu pai, é como estar visitando uma tribo de índios guarani ou até mesmo os pataxós lá do Extremo Sul da Bahia. Sangue caboclo misturado com japonês, provavelmente, mas minha avó não lembra dos parentes. Ou lembra, mas lá no fundo de sua alma que ela parece já não partilhar mais conosco, só consigo mesma.
Quando eu era criança, essa avó tinha longos cabelos abaixo da cintura. Costumava lavá-los no tanque da área de serviço, tamanha mão de obra para secá-los no chuveiro do banheiro. Olhava aquele trabalhão todo fascinada. Crescida e rebelde, usei cabelos curtos durante muitos anos; negando o feminino frágil que hoje, depois dos 30 anos, entendo agora que é minha fortaleza.
Deixo meus cabelos crescerem enquanto minha avó paterna os mantém curtos, porém não por vontade própria. Entre um silêncio e outro ela me olha, lacrimejada, e diz que minhas tias assim o desejaram seus cabelos, curtos, para facilitar o lavar e o secar. E olhos de cachoeira retida em represa, minha avó suspira resignada "já não somos o que queremos e alguém faz por nós", referindo-se a idade avançada.
Acabo de me lembrar do filme Benjamim Button, com Brad Pitt no papel do homem que nasce velho e a medida que o tempo avança, vai voltando a ser criança. Seremos nós, quando velhos, crianças que passam a seguir o que os outros nos dizem e fazem por nós? Ou uma fase da vida em que merecemos que pensem por nós?
Seremos velhas, minhas avós queridas ainda vivas, a vagar pelo mundo feito crianças sem força para brincar... com saudade dos velhos, velhos tempos, velhas pessoas, carregando nos olhos e no coração aquilo que nem sempre o corpo consegue expressar...
Há um pouco de melancolia expressa nesse texto, mas não é tanto um pessimismo. É mais uma nostalgia, uma volta ao passado em uma viagem de 45 minutos até a casa de minha avó paterna, onde todos os meus 30 e quase enta anos se comprimem em flashes muito diminutos e pouco nítidos. A vida passa muito rápido. E além de vivê-la bem, com saudade, respeito ao próximo, amor e ética, precisamos ter mais carinho com nossos velhos e velhas.
Pois assim os seremos, se já não o somos...
Minha vó é uma senhora quieta de 84 anos. Seus cabelos são lisos e brancos, cabelo de japonês, de índio. Estar com ela, minha tia, meu pai, é como estar visitando uma tribo de índios guarani ou até mesmo os pataxós lá do Extremo Sul da Bahia. Sangue caboclo misturado com japonês, provavelmente, mas minha avó não lembra dos parentes. Ou lembra, mas lá no fundo de sua alma que ela parece já não partilhar mais conosco, só consigo mesma.
Quando eu era criança, essa avó tinha longos cabelos abaixo da cintura. Costumava lavá-los no tanque da área de serviço, tamanha mão de obra para secá-los no chuveiro do banheiro. Olhava aquele trabalhão todo fascinada. Crescida e rebelde, usei cabelos curtos durante muitos anos; negando o feminino frágil que hoje, depois dos 30 anos, entendo agora que é minha fortaleza.
Deixo meus cabelos crescerem enquanto minha avó paterna os mantém curtos, porém não por vontade própria. Entre um silêncio e outro ela me olha, lacrimejada, e diz que minhas tias assim o desejaram seus cabelos, curtos, para facilitar o lavar e o secar. E olhos de cachoeira retida em represa, minha avó suspira resignada "já não somos o que queremos e alguém faz por nós", referindo-se a idade avançada.
Acabo de me lembrar do filme Benjamim Button, com Brad Pitt no papel do homem que nasce velho e a medida que o tempo avança, vai voltando a ser criança. Seremos nós, quando velhos, crianças que passam a seguir o que os outros nos dizem e fazem por nós? Ou uma fase da vida em que merecemos que pensem por nós?
Seremos velhas, minhas avós queridas ainda vivas, a vagar pelo mundo feito crianças sem força para brincar... com saudade dos velhos, velhos tempos, velhas pessoas, carregando nos olhos e no coração aquilo que nem sempre o corpo consegue expressar...
Há um pouco de melancolia expressa nesse texto, mas não é tanto um pessimismo. É mais uma nostalgia, uma volta ao passado em uma viagem de 45 minutos até a casa de minha avó paterna, onde todos os meus 30 e quase enta anos se comprimem em flashes muito diminutos e pouco nítidos. A vida passa muito rápido. E além de vivê-la bem, com saudade, respeito ao próximo, amor e ética, precisamos ter mais carinho com nossos velhos e velhas.
Pois assim os seremos, se já não o somos...
21/12/2011
Calibre 38
Vencendo a letargia para escrever, um dia após o meu aniversário.
38 anos. Quase enta (quarENTA).
Não nego, rola uma crise... a crise do "ainda".
Ainda não casei. Ainda não comprei um apartamento. Ainda não me firmei na profissão. Ainda não emagreci os quilos que me incomodam. Ainda não entrei no mestrado. Ainda não consegui ficar menos estressada. Ainda não fui pra Índia.
Ainda não fiz metade das coisas que pretendo e desejo fazer...
Ainda não descobri quais coisas realmente quero e quais me impuseram a querer...
Aí me lembro de histórias que tenho lido ultimamente.
De pessoas que se realizaram após os 40 anos.
De um iogue, com mais de 80, flexível como uma vara inquebrável de borracha.
De uma escritora que adoro, Isabel Allende, que começou a escrever de forma mais séria depois dos ENTA e além de rica foi traduzida no mundo inteiro.
De mulheres que foram mães muito tarde.
De mulheres que se assumiram sem a mínima vocação para serem mães, e que nem por isso deixaram de ficar bem.
De outras e de outros que se esforçaram para vencer o medo e simplesmente aprenderam a ler e a escrever já grisalhos. E outros tantos que, nesses tempos de internet, aprenderam a mexer no computador e a conversar com os netos pelo MSN.
É, meus amigos, sinto que os ENTA estão chegando e aconchegando meu coração.
Ainda sou uma menina, tanto a descobrir, a entender. Menina de mente e corpo (me dão 35 anos, no máximo).
Aí me acalmo, e lembro que tem um vidão, se Deus quiser pela frente.
De posse de meu calibre 38, declaro, "armada e perigosa", rs. Armada de esperança de que as coisas sempre vão melhorar (embora às vezes a gente ache que que piore).
Que idade é como chifre - coisa que colocam na sua cabeça (além do RG)...
38 anos. Quase enta (quarENTA).
Não nego, rola uma crise... a crise do "ainda".
Ainda não casei. Ainda não comprei um apartamento. Ainda não me firmei na profissão. Ainda não emagreci os quilos que me incomodam. Ainda não entrei no mestrado. Ainda não consegui ficar menos estressada. Ainda não fui pra Índia.
Ainda não fiz metade das coisas que pretendo e desejo fazer...
Ainda não descobri quais coisas realmente quero e quais me impuseram a querer...
Aí me lembro de histórias que tenho lido ultimamente.
De pessoas que se realizaram após os 40 anos.
De um iogue, com mais de 80, flexível como uma vara inquebrável de borracha.
De uma escritora que adoro, Isabel Allende, que começou a escrever de forma mais séria depois dos ENTA e além de rica foi traduzida no mundo inteiro.
De mulheres que foram mães muito tarde.
De mulheres que se assumiram sem a mínima vocação para serem mães, e que nem por isso deixaram de ficar bem.
De outras e de outros que se esforçaram para vencer o medo e simplesmente aprenderam a ler e a escrever já grisalhos. E outros tantos que, nesses tempos de internet, aprenderam a mexer no computador e a conversar com os netos pelo MSN.
É, meus amigos, sinto que os ENTA estão chegando e aconchegando meu coração.
Ainda sou uma menina, tanto a descobrir, a entender. Menina de mente e corpo (me dão 35 anos, no máximo).
Aí me acalmo, e lembro que tem um vidão, se Deus quiser pela frente.
De posse de meu calibre 38, declaro, "armada e perigosa", rs. Armada de esperança de que as coisas sempre vão melhorar (embora às vezes a gente ache que que piore).
Que idade é como chifre - coisa que colocam na sua cabeça (além do RG)...
04/10/2011
Mulher de 30: Cartunista de TPM
Charge da divertida Cibela Santos, do blog Mulher de 30.
Às vezes (na maioria das vezes), uma imagem vale mesmo mais que mil palavras...
27/09/2011
Solteira, sim. De segunda classe, não!
Há tempos não escrevo por falta de tempo, vergonha na cara, mas divido com vocês um assunto que há tempos me incomoda, especialmente depois que passei dos 30. Vamos lá.
Hoje, pela enésima vez, escutei algo do tipo "ah, mas você não tem família, sabe como é". Sabe como é. Quem tem família é que sofre na vida. Quem tem família é que precisa de estabilidade financeira. Quem tem família merece prioridade em várias situações da vida e bla-bla-bla.
Esse discurso burguês e conservador me irrita profundamente. Como se o solteiro ou solteira fosse um eterno despreocupado, sem as mesmas necessidade vitais de quem tem uma família. Como se o nosso mundo fosse mais fácil.
Ora, não o é. Guardadas as devidas propoções. Ser solteiro muitas vezes significa que você não tem ninguém a quem recorrer caso a coisa aperte financeiramente. Porque nem sempre os amigos estão disponíveis como alguém da família - não por má vontade, mas porque cada um tem a sua vida, e numa família existe a moral e os bons costumes - e o amor claro - de que os membros de uma família precisam se ajudar.
Existe uma outra coisa importante a comentar. Muitas famílias da minha faixa de condição financeira reclamam que é preciso pagar escola pros filhos, natação pros filhos, e n coisas pros filhos. Ora, nada contra, mas NÃO JOGUEM NA MINHA CARA QUE VOCÊS TÊM MAIS CONTAS A PAGAR. Qualquer família pode se organizar para conseguir escola pública ou mais em conta, permitir que os filhos andem de ônibus (ninguém vai morrer por causa disso) e outros confortos da vida moderna podem ser pesados na hora de se educar os filhos. Sim, os gastos e a responsabilidade aumentam pra caramba... e nesse ponto eu tenho que concordar, famílias têm essa dificuldade a enfrentar.
É claro, cada um tem a liberdade e a possibilidade de fazer o que quiser e dar o que há de melhor por seu filho. Mas a vida é feita de escolhas, e é sempre phoda (isso mesmo, com PH para dar mais ênfase) um pai de família burguês jogar isso na cara de um solteiro. E é claro, não podemos falar nada, porque afinal, somos solteiros, nossa vida é sempre mais fácil, não sabemos nada do que é ter uma família...
Aí está a hipocrisia da sociedade moderna que ainda NÃO ENTENDEU que o mundo mudou e que precisamos aceitar solteiros, homossexuais e outros seres aparentemente diferentes, como parte dessa sociedade.
E abaixo o discurso "você é solteira, sabe como é".
E tenho dito!
Hoje, pela enésima vez, escutei algo do tipo "ah, mas você não tem família, sabe como é". Sabe como é. Quem tem família é que sofre na vida. Quem tem família é que precisa de estabilidade financeira. Quem tem família merece prioridade em várias situações da vida e bla-bla-bla.
Esse discurso burguês e conservador me irrita profundamente. Como se o solteiro ou solteira fosse um eterno despreocupado, sem as mesmas necessidade vitais de quem tem uma família. Como se o nosso mundo fosse mais fácil.
Ora, não o é. Guardadas as devidas propoções. Ser solteiro muitas vezes significa que você não tem ninguém a quem recorrer caso a coisa aperte financeiramente. Porque nem sempre os amigos estão disponíveis como alguém da família - não por má vontade, mas porque cada um tem a sua vida, e numa família existe a moral e os bons costumes - e o amor claro - de que os membros de uma família precisam se ajudar.
Existe uma outra coisa importante a comentar. Muitas famílias da minha faixa de condição financeira reclamam que é preciso pagar escola pros filhos, natação pros filhos, e n coisas pros filhos. Ora, nada contra, mas NÃO JOGUEM NA MINHA CARA QUE VOCÊS TÊM MAIS CONTAS A PAGAR. Qualquer família pode se organizar para conseguir escola pública ou mais em conta, permitir que os filhos andem de ônibus (ninguém vai morrer por causa disso) e outros confortos da vida moderna podem ser pesados na hora de se educar os filhos. Sim, os gastos e a responsabilidade aumentam pra caramba... e nesse ponto eu tenho que concordar, famílias têm essa dificuldade a enfrentar.
É claro, cada um tem a liberdade e a possibilidade de fazer o que quiser e dar o que há de melhor por seu filho. Mas a vida é feita de escolhas, e é sempre phoda (isso mesmo, com PH para dar mais ênfase) um pai de família burguês jogar isso na cara de um solteiro. E é claro, não podemos falar nada, porque afinal, somos solteiros, nossa vida é sempre mais fácil, não sabemos nada do que é ter uma família...
Aí está a hipocrisia da sociedade moderna que ainda NÃO ENTENDEU que o mundo mudou e que precisamos aceitar solteiros, homossexuais e outros seres aparentemente diferentes, como parte dessa sociedade.
E abaixo o discurso "você é solteira, sabe como é".
E tenho dito!
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